23/01/2025
MONTALEGRE Alexandra, a mãe e os 20 porcos: uma saga barrosã
Alexandra tem o sorriso de quem não sabe desistir. A mãe, com setenta anos e mãos marcadas pelas artroses, é o exemplo teimoso de quem continua a dar o litro, mesmo quando o corpo protesta. Entre as duas, com a ajuda intermitente da filha mais nova e a ausência forçada da irmã mais velha, enfrentaram este ano o desafio de cuidar de 20 porcos. Parece coisa pouca para quem olha de fora, mas a verdade é que há um mundo inteiro de tarefas escondido entre o princípio e o fim deste processo.
“Cá estamos, mais uma vez, na Feira do Fumeiro”, diz Alexandra com um misto de orgulho e cansaço. “Há dez anos que não falhamos.”
Nesse tempo, transformaram a lida dos porcos numa arte meticulosa e num ganha-pão que lhes dá a dignidade de viver da terra e do trabalho das mãos. E que mãos, diga-se. As da mãe, apesar da idade e das dores, ainda sabem fazer o que nenhuma máquina consegue imitar: o toque certo que garante que o fumeiro sai com aquele sabor inconfundível que chama clientes de longe.
UM PROCESSO ARTESANAL E OBSTINADO
São vinte porcos, criados com todo o cuidado desde pequenos, alimentados com produtos naturais. A mãe e a filha são uma equipa de duas que trabalha como se fossem cinco ou mais. A rotina começa cedo e termina tarde, todos os dias. Segunda a domingo, sem férias nem feriados, porque os porcos não esperam. E depois, vem a transformação: o corte, o tempero, a cura, tudo feito com o rigor que só quem aprendeu com gerações passadas consegue replicar.
“É muito trabalho, mas vale a pena. Já temos clientes fixos que não deixam de encomendar, e isso dá-nos motivação para continuar”, explica Alexandra. A dinâmica aumenta a cada ano, e com ela o peso da responsabilidade. “Já pensamos em aumentar a produção, mas é difícil. Duas pessoas, com esta carga toda, é um desafio gigante.”
FADIGA E RESILIÊNCIA
Nesta altura do ano, quando a feira se aproxima, o cansaço é palpável. “Chegamos a esta altura muito cansadas”, admite Alexandra. “Mas depois, quando a feira termina, há uma sensação de alívio. É como se o trabalho fosse reconhecido, e isso dá força para começar tudo de novo.”
A ausência da filha mais velha, que estuda e trabalha em Bragança, é sentida com um misto de orgulho e saudade. “Ela lamenta imenso não poder vir ajudar, mas entendemos. Cada uma faz o que pode.”
UM FUTURO ANCORADO NA TRADIÇÃO
A Feira do Fumeiro é o palco onde se apresenta o resultado de meses de esforço, a prova de que a tradição ainda vive e respira em Montalegre. Alexandra e a mãe representam uma história que se repete em muitas casas da região, mas a delas tem o sabor especial de quem luta todos os dias contra as dificuldades e ainda encontra espaço para sonhar.
“Quando vejo o produto final na feira, sei que valeu a pena”, diz Alexandra. “E já estou a pensar na próxima.”
MJA