Mobilidade a Sério

Mobilidade a Sério Plataforma para a informação e análise das questões da mobilidade e transportes no nosso futuro!

A infraestrutura ciclável nas cidades portuguesas está bastante aquém das necessidades, atrasada em relação ao que os PM...
10/06/2026

A infraestrutura ciclável nas cidades portuguesas está bastante aquém das necessidades, atrasada em relação ao que os PMUS recomendavam, e a que existe tem muitos defeitos.

Sem continuidade, sem planeamento, sem funcionalidade. E depois, bastante heterogeneidade. De cidade para cidade encontramos uma grande diversidade em termos de piso, cores, sinalética, etc...

Por causa dessa heterogeneidade e para a tentar contrariar, sai uma proposta de uniformização da infraestrutura ciclável, que pudesse ser transversal a todo o território.

09/06/2026

"As casas não se constroem a partir do telhado"

Antes de impor capacetes e outra regulamentação à utilização de bicicletas e similares, há muito a fazer em termos de infraestrutura.

Neste âmbito infraestrutural é muito mais o que falta fazer do que a aquilo que está feito, por esse país abaixo.

E dentro do que já existe, há muita coisa mal feita.

Sem continuidade, sem planeamento, sem funcionalidade. E depois, bastante heterogeneidade. De cidade para cidade encontramos uma grande diversidade em termos de piso, cores, sinalética, etc...

Por causa dessa heterogeneidade e para a tentar contrariar, sai uma proposta de uniformização da infraestrutura ciclável, que pudesse ser transversal a todo o território.

Não, não é uma guerra aos automóveis, nem precisa de ser.Claro que temos cidades em Portugal onde 70% a 80% das deslocaç...
05/06/2026

Não, não é uma guerra aos automóveis, nem precisa de ser.

Claro que temos cidades em Portugal onde 70% a 80% das deslocações são feitas de automóvel. E o resultado está à vista: trânsito crescente, dificuldades de estacionamento e congestionamentos que já não acontecem apenas nas horas de ponta.

Isto não é surpreendente. É simplesmente a física a acontecer.

Milhares de automóveis, cada um a ocupar vários metros quadrados de espaço, tentam utilizar as mesmas ruas, ao mesmo tempo, para chegar aos mesmos destinos: escolas, universidades, hospitais, centros comerciais, zonas industriais e empresariais.

O tempo não aumenta. O espaço também não.

Por isso, quando demasiados veículos concorrem pelo mesmo espaço, os congestionamentos tornam-se inevitáveis.

Mas há um ponto importante que muitas vezes é ignorado: não é necessário retirar metade dos carros da estrada para melhorar drasticamente a situação.

Os sistemas de mobilidade funcionam perto de um limite de capacidade. Só que quando esse limite é ultrapassado, pequenas diferenças geram grandes consequências. Em muitas situações, uma redução de apenas 10% a 20% das viagens em automóvel pode ser suficiente para diminuir significativamente os congestionamentos, reduzir a pressão sobre o estacionamento e tornar os tempos de viagem mais previsíveis.

E talvez essa seja a parte mais interessante: os primeiros 10% a 20% são provavelmente os mais fáceis de alcançar, se houver noção, e vontade política.

Certamente existem muitas pessoas que deixariam o carro em casa para algumas deslocações se tivessem alternativas que fossem seguras, rápidas, previsíveis e economicamente competitivas. Caminhar, pedalar, utilizar transportes públicos ou outras formas de mobilidade não são soluções para todos os percursos, mas podem ser soluções para uma parte importante deles.

Por isso, esta discussão não deveria ser uma guerra contra o automóvel.

Os discursos radicais anti-carro tendem a gerar resistência e uma reação defensiva por parte de quem depende dele no seu dia a dia. E é compreensível. Muitas pessoas utilizam o automóvel não por escolha ideológica, mas porque as alternativas existentes não respondem às suas necessidades.

A verdadeira questão não é eliminar o automóvel. É reduzir a dependência excessiva dele.

Uma cidade equilibrada não é uma cidade sem carros. É uma cidade onde cada pessoa pode escolher a forma de deslocação mais adequada para cada viagem.

Quando mais pessoas têm boas alternativas ao automóvel, todos beneficiam — incluindo aqueles que continuam a precisar dele.

Menos dependência do carro significa mais opções, menos congestionamento, menos stress e uma utilização mais racional do espaço urbano.

A pergunta que devemos fazer não é "como acabar com os carros?", mas sim:

Como podemos criar condições para que 10% ou 20% das viagens atualmente feitas de automóvel possam ser realizadas de outra forma, de forma confortável, segura e eficiente?

Talvez aí esteja uma das soluções mais simples e eficazes para recuperar a funcionalidade das nossas cidades.

O protocolo seguinte, será efectivo em praticamente qualquer cidade ou vila:

1. Reduzir o tráfego de atravessamento nas áreas urbanas:

Aquele tráfego que passa pelas ruas e avenidas mais movimentadas mas que não as tem como origem/destino tem de ser canalizado para vias periféricas caso existam, ou então tem de se construir.
Sem isto, não se vai arranjar espaço suficiente nos centros urbanos para melhorar o transporte público e o espaço pedonal e ciclável, sem criar ainda mais caos.

2. Reforma dos Sistemas de Transporte:

Hierarquizar o sistema de transportes.

Definir as soluções de mobilidade regional com prioridade ao comboio nos corredores principais, complementado com bus interurbanos nos corredores regionais secundários.

Definir as soluções de mobilidade urbana de acordo com a demanda e densidade do corredor: metro, tram, bus.

Não misturar as duas coisas!! É o maior erro e o mais difícil de corrigir. Avançar com soluções ligeiras na mobilidade regional, como está a ser promovido em várias regiões do país (BRTs a substituir ferrovia), será fatal e muito mais oneroso de corrigir.

Com uma boa hierarquia de transportes, será mais fácil desenhar as linhas e a exploração:

Linhas diametrais, que atravessem o território e conectem os locais que geram mais movimento (hospitais, escolas, universidades, áreas comerciais e industriais);

Em sítio próprio tanto quanto possível;

Acesso e bilhética simples: nem precisa de ser gratuito. Basta que seja simples, fácil de adquirir, pré-pago, desmaterializado, intermodal.

E claro, parques de estacionamento dissuasores nas estações/paragens das linhas de transporte.

3. Reforma do espaço urbano e rede ciclável:

Com uma redução da pressão automóvel, o espaço pode ser convertido em áreas pedonais de maior qualidade e segurança, ciclovias segregadas e áreas de lazer.

Rotas cicláveis segregadas, seguras, diametrais, que passem à porta das escolas, hospitais, universidades, áreas comerciais e indústrias, e que atravessem os bairros. Uma rede continua de ciclovias e não pequenos troços dispersos e desligados entre si.

02/06/2026

Olten é uma localidade na Suiça, com cerca de 18 mil habitantes, onde se situa um dos muitos "nós" da Rede Ferroviária. Pois que uma rede pressupõe "nós", pontos sucessivos em que as linhas se cruzam.
E por Olten passam cerca de 1100 (mil e cem!!!) comboios por dia! E cerca de 80mil passageiros já agora. Para Berna, Genebra, Zurique, Basileia, Milão, Hamburgo, Berlim e tantos destinos.

Serão os carros elétricos a salvação?É prioritário subsidiar a troca de carros a combustão por carros elétricos, em nome...
31/05/2026

Serão os carros elétricos a salvação?

É prioritário subsidiar a troca de carros a combustão por carros elétricos, em nome da sustentabilidade? Não há nada mais em que gastar o dinheiro público?

A discussão sobre os carros elétricos tem sido apresentada, demasiadas vezes, como uma escolha simples em nome da sustentabilidade. Mas a realidade é muito mais complexa.

Os veículos elétricos podem reduzir emissões locais e contribuir para a descarbonização dos transportes. Certo. No entanto, isso não significa que uma migração massiva, acelerada e fortemente subsidiada pelo Estado esteja isenta de riscos, custos e limitações.

O fabrico de baterias exige a extração de grandes quantidades de lítio, níquel, cobalto e outros minerais, frequentemente com impactos ambientais e sociais significativos em várias regiões do mundo. A produção de um automóvel elétrico consome também recursos consideráveis e gera uma pegada ambiental que raramente é discutida com a mesma intensidade que as emissões dos motores a combustão.

Depois existe a questão da infraestrutura. Será a rede elétrica atual capaz de suportar milhões de veículos a carregar regularmente? Quantos investimentos serão necessários em produção, transporte e distribuição de eletricidade para tornar isso possível? E de onde virá essa energia adicional nos períodos de maior consumo? Continuar a depender dos fósseis para estabilizar a rede elétrica?

Há ainda problemas que não desaparecem apenas porque se troca o motor. Os carros elétricos continuam a ocupar espaço, a gerar congestionamento urbano, a produzir partículas provenientes dos pneus e dos travões e, devido ao seu maior peso, contribuem para um desgaste mais rápido das estradas e de algumas infraestruturas (atenção à carga nos estacionamentos).

Também permanecem dúvidas sobre os custos de substituição das baterias, a sua reciclagem em larga escala, os impactos ambientais associados a esse processo, a autonomia em determinadas condições e o preço dos carregamentos rápidos.

Talvez a verdadeira questão não seja "carros elétricos ou carros a combustão". Talvez seja perceber se estamos a concentrar recursos públicos numa única solução tecnológica, quando o desafio da mobilidade exige uma abordagem mais ampla: transportes públicos eficientes, ferrovia, mobilidade suave, planeamento urbano inteligente e redução da dependência do automóvel.

A transição energética é necessária. Mas uma boa política pública deve avaliar não apenas os benefícios, mas também os custos, limitações e consequências de longo prazo.

31/05/2026

Estes Suíços não percebem nada disto. Investem continuamente na rede ferroviária, até em linhas secundárias, quando podiam simplesmente deixá-las apodrecer, e depois substituir por autocarros modernos a baterias que duram 8 anos e andam de rodas tapadas 🤦‍♂️
Calma... O BRT/Metrobus até é uma coisa fixe, no sítio certo, ou seja, como evolução das linhas de autocarros de maior demanda. Mas jamais será solução para substituir os meios ferroviários, sobretudo o Metro ou Linhas Suburbanas e Regionais.

Sim, com a evolução da mobilidade em bicicletas e similares, haverá mais tarde ou mais cedo a necessidade de regulação. ...
30/05/2026

Sim, com a evolução da mobilidade em bicicletas e similares, haverá mais tarde ou mais cedo a necessidade de regulação. Capacete, seguros, vistorias... Já lá vamos...

Mas será essa a maior prioridade neste momento?

A recente proposta do Partido Social Democrata para tornar obrigatório o uso de capacete e refletores parece centrar a responsabilidade no utilizador, quando o verdadeiro e mais imediato desafio está na infraestrutura e no planeamento urbano.

É um regresso do PSD a um "elas foram violadas porque se puseram a jeito, provocadoras e tal.."

Com o aumento do número de pessoas que se deslocam de bicicleta e trotinete, é natural que também aumente o número de incidentes envolvendo estes modos de transporte. Mas a pergunta que importa fazer é: porque acontecem estes acidentes?

Será que os utilizadores de bicicletas e trotinetes encontram um espaço público preparado para os acolher em segurança? Ou continuam a circular em ruas e avenidas expostos a riscos acrescidos para a sua segurança, por inércia e falta de intervenção na infraestrutura?

Muitas vezes, estes utilizadores enfrentam a hostilidade do trânsito motorizado e são empurrados para soluções de recurso, como a utilização dos passeios, gerando novos conflitos com os peões. Será que a obrigatoriedade do capacete e de refletores resolve estes problemas? Vai reduzir a pressão do trânsito automóvel? Vai eliminar os pontos de conflito nas nossas cidades?

Antes de impor novas obrigações, é fundamental cumprir os PMUS (Planos de Mobilidade Urbana Sustentável), investir na transformação das ruas e avenidas e criar condições para que bicicletas e trotinetes possam circular em segurança. Reduzir o conflito entre modos de transporte e prevenir acidentes começa no desenho do espaço público, não apenas no equipamento que cada pessoa usa.

Honestamente, o convívio de bicicletas no meio do trânsito automóvel não é desejável. É que nem os automobilistas nem os ciclistas o desejam. Depois de resolvermos isto, com segregacionismo do bom, teremos sim, muitos mais utilizadores de bicicleta e similares.
E então aí surgirá naturalmente a necessidade de regular e fiscalizar estes modos.

Assim como com a massificação do automóvel surgiram cintos de segurança, airbags, vistorias e seguros, primeiro facultativos e posteriormente obrigatórios, será normal que o mesmo ocorra com a evolução do uso das bicicletas e similares.

Capacete, seguro de responsabilidade civil, vistoria técnica periódica. Quem levar a sério os riscos que corre quando anda de bicicleta ou trotinete no espaço público, mais tarde ou mais cedo vai perceber da necessidade de cumprir estas medidas, muito antes que as mesmas lhe sejam impostas.

Porque até na mais idílica rede ciclável do mundo pode haver um azar. Uma queda com cabeça no lancil; Um travão avariado e entrar por uma montra adentro; Raspar a carroçaria de um Jaguar. Perante um azar destes, entre estar seguro ou ficar com a vida estragada, o senso comum responde.

Nestas discussões há por vezes alguma imaturidade, ingenuidade e fundamentalismo, muitas vezes contraproducente. E os utilizadores de bicicleta não são todos santos. Há muitos irresponsáveis, tal qual os ha automobilistas.

Não será pelo uso de capacete, seguro, etc... que a bicicleta deixa de ser fantástica e excelente alternativa ao automóvel, para muitas deslocações individuais. Aliás, se o que motiva a utilização de bicicleta for a expectativa de ausência de normas e responsabilidades... talvez não sejam essas as mais profícuas motivações para a causa.

Terminando, se queremos cidades mais seguras e mais sustentáveis, precisamos de olhar para as causas dos problemas, e não apenas para as suas consequências.

Primeiro façam as ciclovias e criem condições de segurança para prevenir os incidentes, por design da infraestrutura.
Depois aí sim. Regule-se, fiscalize-se.

28/05/2026

Vitoria-Gasteiz, Cidade Capital Verde Europeia em 2012, manda cumprimentos à Guimarães 26 - Capital Verde Europeia

Urbanismo e ordenamento ✅
Áreas de prioridade pedonal e acesso automóvel restrito ✅
Rede de Ciclovias segregadas e seguras a ligar os bairros aos locais de interesse ✅
Transportes em sítio próprio: Tramway e Autocarros não ficam presos no trânsito ✅
Parques infantis e de lazer no centro ✅

Ricardo Araújo, o herdeiro de Domingos Bragança.Aquando das eleições e a respeito deste tema, já se sabia que Ricardo Ar...
16/01/2026

Ricardo Araújo, o herdeiro de Domingos Bragança.

Aquando das eleições e a respeito deste tema, já se sabia que Ricardo Araújo era, ironicamente, a promessa da continuidade de Domingos Bragança.

Havia contudo, alguma esperança, que para lá da mudança de estilo, se pudessem corrigir alguns dos defeitos congénitos do projecto BRT/Metrobus que Domingos Bragança pariu, depois da inseminação de José Mendes, que não hesita em aparecer como pai da criança, apesar de todos o seus defeitos.

Ricardo é agora a ama de leite deste BRT/Metrobus, e do que pudemos assistir nesta apresentação, embala como seu, no seu regaço, este projecto que perpétua equívocos e erros básicos no conceito e no plano, que já anteriormente ilustramos, mas que não deixaremos de relembrar:

1) Confundir a Mobilidade Urbana com a Mobilidade Regional.
O BRT/Metrobus é uma solução de mobilidade urbana, com boas perspectivas de aproveitamento intra-concelhio. Mas jamais será competente na resposta às necessidades de mobilidade regionais, nomeadamente como uma futura ligação à Linha de Alta Velocidade Porto-Braga-Vigo, que continua a ser martelada e usada como argumento.
Uma solução ferroviária pode e deve coexistir com o BRT/Metrobus, pois servirá a mobilidade regional, numa função e competência distinta. É um erro que a CMG continue sem desfazer este equívoco.

2) Na dimensão intra-concelhia do projecto BRT/Metrobus, o que foi apresentado nesta sessão, perpetua erros de conceito e planeamento bastante graves.
Não é possível este sistema continuar a ser desenhado para ter a sua inserção na área urbana com terminal na Alameda Alfredo Pimenta, sem que alcance ou interaja com os maiores pólos geradores de procura da cidade e do concelho.

Esta solução, para ter efeitos na mobilidade a sério, tem de ir à porta do Hospital, da Universidade e de ter interfaces diretas com a estação ferroviária e a central de camionagem. Tem de atravessar diametralmente a cidade, nos corredores urbanos em que as pessoas mais se deslocam, criando enfim uma alternativa ao automóvel.

Ademais, o trajecto apresentado não passará no Parque Industrial de Ponte. Mas como é possível apresentar tal coisa assim despudoradamente?

Ficar a 1 Km ou mais de cada um destes pólos é de uma incompetência e ignorância avassaladora, de quem não sabe o que está a fazer e nem se importa com o resultado e as implicações futuras.

Ainda faz sentido na cabeça de alguém responsável, que os locais que geram mais tráfego e que penalizam mais o acesso e atravessamento da cidade fiquem desligados do sistema de transportes? Para que as pessoas continuem a não ter alternativas no acesso a esses locais e continuem a preferir o automóvel?

3) A implementação das faixas do BRT/Metrobus no canal na EN101, sem que haja uma prévia reorganização do sistema viário, em que a entretanto abandonada via do AvePark podia ter um papel importante, tornará o processo muito penoso e ainda mais caótico para que se desloca diariamente naquele corredor.

A hipótese de haver segmentos do traçado partilhados com o trânsito automóvel banal, por mais curtos que sejam, pode minar toda a funcionalidade e fiabilidade do sistema.

Enfim, haja esperança que as pessoas responsáveis comecem a despertar para estas questões.

Mas, para já, só mudou o estilo. No conteúdo, Ricardo é o novo Domingos e quatro anos passam depressa.

A Pedonalização. Oportunidades. O Comércio e os seus mitos.Há na história recente de muitas cidades, um capítulo muito m...
09/10/2025

A Pedonalização. Oportunidades. O Comércio e os seus mitos.

Há na história recente de muitas cidades, um capítulo muito marcante que é a pedonalização.

Pedonalização é um termo simplista que abrange um amplo conjunto de objectivos e intervenções. Seria mais correcto designar de Reforma do Espaço Público, restabelecendo equilíbrios e hierarquizado as necessidades com o ser humano no topo da pirâmide.

Aumentando a área disponível para peões, aumenta-se a segurança efectiva e perceptível de quem caminha.

Isto é importante para que crianças e idosos se sintam à vontade para se deslocar.

A velocidade a que se caminha permite contemplar e interagir com o seu entorno. E isto é do interesse da maior parte do comércio tradicional que ainda vive do seu local físico e da promoção das suas montras.

Maiores áreas livres do atravessamento automóvel, também propiciam a instalação de uma série de equipamentos que atraem diferentes públicos, como parques infantis e quadras desportivas.

Estas intervenções são normalmente uma oportunidade de higienização urbana nos centros históricos, com espaço para jardins, áreas de sombra e cobertura dos canais de circulação para tornar mais confortável caminhar em dias de maior calor ou de chuva.

Mesmo fora do contexto de centros históricos, se nos deslocarmos para áreas suburbanas, é frequente encontrarmos ruas sem passeios, ou constrangidos ao ponto de não permitirem o cruzamento de peões ou a circulação de cadeiras de rodas ou carrinhos de bebé.
Nestes locais também tem de haver uma intervenção que defenda o espaço seguro do peão face ao invasor que é o automóvel.

Nestes casos estamos a falar de áreas eminentemente residenciais, em que as pessoas comem e dormem a poucos metros de vias em que circulam milhares de automóveis diariamente. Um problema de saúde pública, ao qual muitos se tentam alhear, quais negacionistas da moda.

E há demasiados atropelamentos. Banalizou-se a ideia de que os atropelamentos acontecem, são azares inevitáveis. Não são. As ruas podem ser desenhadas de forma a impedir este risco. Baixar a velocidade de circulação dos veículos motorizados está ao alcance de intervenções táticas como gincanas, reduções de largura de vias, nivelamento do piso, entre muitos. Mais efectivos que a sinalização.

Enfim, isto também não deve ser levado para uma guerra contra os carros. Mas o que temos hoje na pratica é uma guerra aos não-carros. Peões, modos suaves e transporte público estão a ser castigados pelo excesso de automóveis no espaço publico.

A maioria das ruas, praças e avenidas dedica 80% da sua área ao automóvel. E em jeito de ciclo vicioso, quanto mais se reduz o espaço para formas alternativas, mais automóveis ainda vão ser induzidos até a um colapso, que já se assiste em muitas cidades, em Guimarães também já estamos próximos desse ponto.

O populismo mais impulsivo propõe ainda mais espaço e facilidade para o automóvel. Mais faixas de rodagem. Mais lugares de estacionamento e sem ser pago até.
Mais gente a tentar meter o carro durante mais tempo nas mesmas ruas, mais procuradas. Uma experiência de caos, que até era interessante praticar para funcionar como vacina. Neste sistema, os lugares de estacionamento nunca são suficientes. Como o espaço público não cresce, a miragem desta gente é ocupar todo e qualquer canto com carros. Passeios, largos e praças. Saudades de um Toural e de uma Alameda de S.Damaso invadidos por carros, o que por vezes até acontece em alguns serões mais festivos.

A visão mais lírica propõe simplesmente fechar ruas ao trânsito e as pessoas que se desenrasquem, como ocorreu nos ensaios que CMG promoveu no último ano.
Isto não funciona assim. As pessoas foram estimuladas para utilizar o automóvel ao longo de décadas, têm hábitos e rotinas enraízados. Medidas hostis só alimentam o populismo e criam resistência à mudança que é necessária.

Toda e qualquer medida de condicionamento de trânsito automóvel em qualquer rua terá de ser acompanhada por uma respectiva rota alternativa e por um reforço qualitativo de alternativas. O transporte público de qualidade, acessível e atraente tem de estar operacional na hora em que se decidirem fechar ruas ao trânsito de atravessamento.

As pessoas têm de saber que podem escolher alternativas, sejam pedonais, cicláveis ou transporte colectivo para ir do ponto A ao ponto B com o conforto e flexibilidade que tinham com o automóvel.

Quando se discute a pedonalização do centro histórico, não pode reduzir a questão apenas à subtração da circulação automóvel em certas ruas. O acesso automóvel deve continuar a ser possível para moradores, emergências, logística e transportes. O tráfego de atravessamento é que tem de ser desviado para rotas alternativas e o estacionamento perdido deve ser compensado com novas bolsas de estacionamento à margem das áreas pedonalizadas.

Não faz sentido que se tenha de atravessar o centro da cidade, para ir de uma ponta a outra. Tem de haver rotas alternativas, periféricas. Muito menos sentido faz que se tenha de entrar na cidade para se deslocar entre localidades periféricas.

Em Guimarães já se discute este assunto desde finais do século XX, e têm-se perdido oportunidades sucessivas de intervir a sério no espaço público do centro urbano, de forma a regenerar o comércio tradicional e a vida urbana, que se mantém estagnada.

Ironicamente, são precisamente algumas franjas desse comércio tradicional as vozes mais histéricas contra a transformação.
Refugiam-se no mito de que se pararem de circular os automóveis à porta, os clientes desaparecem.
Se fosse esse o problema, talvez os próprios comerciantes deixariam eles próprios de açambarcar o estacionamento disponível. Todos os dias, de manhã à noite, os mesmos carros, nos mesmo lugares, nas mesmas ruas, dos mesmos lojistas a tirarem lugar aos clientes.

De mito em mito:

E a concorrência dos shoppings?

Em Guimarães, em 2025, as maiores áreas pedonais que existem são precisamente as galerias dos grandes centros comerciais. São ruas largas, centenas de metros livres de circulação automóvel, em que se pode caminhar sem ameaça de ser atropelado, com bancos, com cafés, com áreas de lazer e parques infantis.

Nos shoppings, ninguém estaciona à porta de uma loja, nem deixa de ir a essa loja por isso. Estaciona-se em áreas concentradas para o efeito e depois caminha-se porta a porta, tranquilamente.

Não é à toa que os idosos, jovens e famílias se sentem atraídos por esses espaços.

Além dos serviços e horários disponíveis, a chave está na comodidade do acesso. São locais onde se anda a pé, em segurança e conforto.

Grande parte dos exemplos de sucesso de pedonalização em cidades por esse mundo foi isso que procuraram e conseguiram. Atrair as pessoas pela comodidade e segurança de circulação a pé. Para atrair todos os públicos.

O área do centro histórico de Guimarães é facilmente atravessada a pé em cerca de 10 minutos, em qualquer meridiano.

É a área e são as distâncias perfeitas para implementar algo deste género de forma pacifica. 10 minutos e chega-se a todo o lado a caminhar. Se houver dentro destas áreas permeabilidade ao transporte público e aos modos suaves, ainda mais eficiente se torna o acesso.

Está na hora de deixar cair mitos e começar a transformar a sério Guimarães, para o século XXI.

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