09/10/2025
A Pedonalização. Oportunidades. O Comércio e os seus mitos.
Há na história recente de muitas cidades, um capítulo muito marcante que é a pedonalização.
Pedonalização é um termo simplista que abrange um amplo conjunto de objectivos e intervenções. Seria mais correcto designar de Reforma do Espaço Público, restabelecendo equilíbrios e hierarquizado as necessidades com o ser humano no topo da pirâmide.
Aumentando a área disponível para peões, aumenta-se a segurança efectiva e perceptível de quem caminha.
Isto é importante para que crianças e idosos se sintam à vontade para se deslocar.
A velocidade a que se caminha permite contemplar e interagir com o seu entorno. E isto é do interesse da maior parte do comércio tradicional que ainda vive do seu local físico e da promoção das suas montras.
Maiores áreas livres do atravessamento automóvel, também propiciam a instalação de uma série de equipamentos que atraem diferentes públicos, como parques infantis e quadras desportivas.
Estas intervenções são normalmente uma oportunidade de higienização urbana nos centros históricos, com espaço para jardins, áreas de sombra e cobertura dos canais de circulação para tornar mais confortável caminhar em dias de maior calor ou de chuva.
Mesmo fora do contexto de centros históricos, se nos deslocarmos para áreas suburbanas, é frequente encontrarmos ruas sem passeios, ou constrangidos ao ponto de não permitirem o cruzamento de peões ou a circulação de cadeiras de rodas ou carrinhos de bebé.
Nestes locais também tem de haver uma intervenção que defenda o espaço seguro do peão face ao invasor que é o automóvel.
Nestes casos estamos a falar de áreas eminentemente residenciais, em que as pessoas comem e dormem a poucos metros de vias em que circulam milhares de automóveis diariamente. Um problema de saúde pública, ao qual muitos se tentam alhear, quais negacionistas da moda.
E há demasiados atropelamentos. Banalizou-se a ideia de que os atropelamentos acontecem, são azares inevitáveis. Não são. As ruas podem ser desenhadas de forma a impedir este risco. Baixar a velocidade de circulação dos veículos motorizados está ao alcance de intervenções táticas como gincanas, reduções de largura de vias, nivelamento do piso, entre muitos. Mais efectivos que a sinalização.
Enfim, isto também não deve ser levado para uma guerra contra os carros. Mas o que temos hoje na pratica é uma guerra aos não-carros. Peões, modos suaves e transporte público estão a ser castigados pelo excesso de automóveis no espaço publico.
A maioria das ruas, praças e avenidas dedica 80% da sua área ao automóvel. E em jeito de ciclo vicioso, quanto mais se reduz o espaço para formas alternativas, mais automóveis ainda vão ser induzidos até a um colapso, que já se assiste em muitas cidades, em Guimarães também já estamos próximos desse ponto.
O populismo mais impulsivo propõe ainda mais espaço e facilidade para o automóvel. Mais faixas de rodagem. Mais lugares de estacionamento e sem ser pago até.
Mais gente a tentar meter o carro durante mais tempo nas mesmas ruas, mais procuradas. Uma experiência de caos, que até era interessante praticar para funcionar como vacina. Neste sistema, os lugares de estacionamento nunca são suficientes. Como o espaço público não cresce, a miragem desta gente é ocupar todo e qualquer canto com carros. Passeios, largos e praças. Saudades de um Toural e de uma Alameda de S.Damaso invadidos por carros, o que por vezes até acontece em alguns serões mais festivos.
A visão mais lírica propõe simplesmente fechar ruas ao trânsito e as pessoas que se desenrasquem, como ocorreu nos ensaios que CMG promoveu no último ano.
Isto não funciona assim. As pessoas foram estimuladas para utilizar o automóvel ao longo de décadas, têm hábitos e rotinas enraízados. Medidas hostis só alimentam o populismo e criam resistência à mudança que é necessária.
Toda e qualquer medida de condicionamento de trânsito automóvel em qualquer rua terá de ser acompanhada por uma respectiva rota alternativa e por um reforço qualitativo de alternativas. O transporte público de qualidade, acessível e atraente tem de estar operacional na hora em que se decidirem fechar ruas ao trânsito de atravessamento.
As pessoas têm de saber que podem escolher alternativas, sejam pedonais, cicláveis ou transporte colectivo para ir do ponto A ao ponto B com o conforto e flexibilidade que tinham com o automóvel.
Quando se discute a pedonalização do centro histórico, não pode reduzir a questão apenas à subtração da circulação automóvel em certas ruas. O acesso automóvel deve continuar a ser possível para moradores, emergências, logística e transportes. O tráfego de atravessamento é que tem de ser desviado para rotas alternativas e o estacionamento perdido deve ser compensado com novas bolsas de estacionamento à margem das áreas pedonalizadas.
Não faz sentido que se tenha de atravessar o centro da cidade, para ir de uma ponta a outra. Tem de haver rotas alternativas, periféricas. Muito menos sentido faz que se tenha de entrar na cidade para se deslocar entre localidades periféricas.
Em Guimarães já se discute este assunto desde finais do século XX, e têm-se perdido oportunidades sucessivas de intervir a sério no espaço público do centro urbano, de forma a regenerar o comércio tradicional e a vida urbana, que se mantém estagnada.
Ironicamente, são precisamente algumas franjas desse comércio tradicional as vozes mais histéricas contra a transformação.
Refugiam-se no mito de que se pararem de circular os automóveis à porta, os clientes desaparecem.
Se fosse esse o problema, talvez os próprios comerciantes deixariam eles próprios de açambarcar o estacionamento disponível. Todos os dias, de manhã à noite, os mesmos carros, nos mesmo lugares, nas mesmas ruas, dos mesmos lojistas a tirarem lugar aos clientes.
De mito em mito:
E a concorrência dos shoppings?
Em Guimarães, em 2025, as maiores áreas pedonais que existem são precisamente as galerias dos grandes centros comerciais. São ruas largas, centenas de metros livres de circulação automóvel, em que se pode caminhar sem ameaça de ser atropelado, com bancos, com cafés, com áreas de lazer e parques infantis.
Nos shoppings, ninguém estaciona à porta de uma loja, nem deixa de ir a essa loja por isso. Estaciona-se em áreas concentradas para o efeito e depois caminha-se porta a porta, tranquilamente.
Não é à toa que os idosos, jovens e famílias se sentem atraídos por esses espaços.
Além dos serviços e horários disponíveis, a chave está na comodidade do acesso. São locais onde se anda a pé, em segurança e conforto.
Grande parte dos exemplos de sucesso de pedonalização em cidades por esse mundo foi isso que procuraram e conseguiram. Atrair as pessoas pela comodidade e segurança de circulação a pé. Para atrair todos os públicos.
O área do centro histórico de Guimarães é facilmente atravessada a pé em cerca de 10 minutos, em qualquer meridiano.
É a área e são as distâncias perfeitas para implementar algo deste género de forma pacifica. 10 minutos e chega-se a todo o lado a caminhar. Se houver dentro destas áreas permeabilidade ao transporte público e aos modos suaves, ainda mais eficiente se torna o acesso.
Está na hora de deixar cair mitos e começar a transformar a sério Guimarães, para o século XXI.