25/04/2016
Nesta época eu sofria da Síndrome do Pensamento Acelerado, tomei decisões baseadas em simples emoções muitas vezes achando que iria dominar o mundo, o que por um lado deixou o negócio com cara de não negócio, o que sinceramente ainda me questiono se um dia foi, mas por outro, me levou para a beira do abismo. O primeiro estoque comprei em viagens desgastantes e malucas, viagens longas de ônibus para São Paulo e Rio. Eu me hospedava sempre no hostel mais barato e em quartos compatilhados que mal dormia, carregava a mochila lotada de mercadoria por longas distâncias e a grana era curta para outras coisas que não fosse o investimento no estoque, era uma verdadeira caça ao tesouro. Para mim fazia sentido na época estes sacrifícios, exigir e forçar muito o corpo, ficar com fome, com sono e acabada e por muitas vezes doente eram suportados pelo combustível de acreditar que o negocio da Garota Perdida era diferente e original e que as pessoas iriam gostar disso.
Meu primeiro estoque foi lotado de roupas vintage. E uma pequena parcela retro. Pra quem não sabe o vintage é o original de época, e, para ser considerado vintage a peça deve ter no minimo 20 anos de existência. Não é fácil encontrar uma boa peça vintage e isso era a minha tara, algo puramente pessoal que quis fazer negócio, vender meu gosto e prazer, e assim veio mais um grande erro.
Moro em uma cidade interiorana porém grande geograficamente, nossa gente detém de certos conceitos e preconceitos. O mineiro tem o perfil de ser difícil, desconfiado, fechado e acreditem ele é. Talvez não o mineiro da capital que em seu desenvolvimento e acesso a coisas passou por reciclagens conceituais, me refiro ao mineiro daqui, dos interiores pra lá da roça.
Quando abri a loja e enchi os cabides com maioria de roupas originais anos 50, 60 e 70 que como disse foram muito difíceis de achar, as pessoas que entravam na loja faziam cara de estranheza, elas não conseguiam entender como eu poderia estar vendendo coisas usadas e na mentalidade delas, velhas. Antes do pessoal da terceira idade começar a ir na loja apenas para relembrar coisas que já usaram e tiveram e também para olhar a decoração composta por antiguidades ( isso enchia o s**o) eu, em minha profunda inocência não conseguia compreender o porquê do resto das pessoas não entenderem o que eu estava oferecendo. Eu oferecia história e estilo, mas pra galera da rua não passava de coisas para uma festa brega ou a fantasia. E acreditem, minha seleção era impecável, só quem sabe e aprecia a moda vintage entende como é difícil encontrar peças em ótimo estado e que transmite a mensagem que deve. Antigamente as roupas eram feitas para durar, costuradas muitas vezes a mão, botões em madeira, prata, madre pérola, Deus! era muita vida para uma roupa que o público não conseguia perceber e receber; além de fazerem cara de nojinho e gozação, caso houvessse algum interesse arregalavam os olhos ao ver o preço que na cabeça deles eram de roupa nova, roupas usadas na mente deles valeriam uns 5 reais e olhe lá. Como eu sofri neste época, foi deprimente, até eu perceber que cometi mais dois grandes erros como empreendedora, primeiro não fiz pesquisa de mercado, segundo passei a tomar raiva e antipatia de quem entrava na loja de curioso, pois, na minha cabeça lá vinha outro que não entendia nada do que eu estava oferecendo. Pacionalisei totalmente o meu negócio.
O tempo se passava e as vendas não eram o suficiente para manter as contas, o público que consumia minha mercadoria eram centrados na galera alternativa, estudantes, pessoas da arte, viajadas, uma ou outra que curtia o que eu oferecia. Ou seja, não era o suficiente para manter o negócio, não mesmo.
Em dois meses de loja enxerguei que teria que mudar ou não duraria, e foi ai que decidi focar apenas na moda retrô. Enquanto o vintage é o original de época, o retrô se baseia em ser uma releitura de peças usadas antigamente, são peças novas, podendo ser muitas vezes réplicas também, que em sua maioria são compostas por cortes ou cores antigas mas adaptadas ao tempo atual, por exemplo, mais curto caso for um vestidinho. E foi por gostar muito e saber da facilidade de vender foquei nos vestidos com cortes rodados e fofos, porém com exclusividade em estampas e tamanhos, porque na real eu não tinha dinheiro para comprar grade de peças então selecionava o que achava interessante na desculpa de que eram fabricadas e desenhados em pequena escala, o que não era verdade. Era um modo de atrair a atenção do consumidor. De certo modo sempre protegi muito bem meus fornecedores, aliás foram muitos dinheiros e pernadas gastas antes de encontrar todos. Por Uberlândia ser uma cidade interiorana, muito das lojas tem seu conceito de moda baseado em moda de revista e blogs fashion, ou seja, o que reina por aqui são as coleções do Brás e Bom Retiro por assim dizer, minha lógica era que a probabilidade de uma loja oferecer o que eu oferecia era mínima, assim sendo, eu poderia dizer que tudo que vendia era único, o que depois de algum tempo e muitas descobertas passou realmente a ser (...)
Ah, quanto ao lance do piso antes da inauguração da loja, não pensem que abri a loja no chão batido de terra. Naquela situação desesperadora minha mãe mesmo muito decepcionada comigo por eu ter largado a carreira jurídica (ela também é advogada então imagina) para virar s**oleira e abrir uma loja sem precedentes, me ofereceu de presente o piso, porém o mais baratinho, e isto foi um grande passo para nós duas, fazia um tempo que ela não perguntava nada sobre minha vida e como ia o andamento da loja, não queria saber mesmo, sempre desconversada quando eu tentava dividir algo, foi um tempo difícil para nós duas. Enfim, mãe é mãe. Acho que esse lance do piso foi uma preparação, porque no fim ela teria que aceitar que do nada eu mudei o rumo de minha vida, afinal muito ainda estava por vir e ela teria que suportar muita coisa. Eu, vagando com uma mochila nas costas era uma delas.
Bom lembrar a inauguração. So amigas, minha filha, drinks, umas duas passantes e eu com um original dos anos 50.
(Continua)