06/03/2016
Carga dividida - Para Refletir
Gálatas 6:1-3
O contexto desse conselho é específico quanto a tratar do dever que os cristãos espirituais, amadurecidos, têm no sentido de restaurar irmãos que foram vencidos pelo pecado, compartilhando sua carga de sofrimento e vergonha. Afinal, eles mesmos, os espirituais e amadurecidos, não estão imunes a essa infeliz experiência. Engana-se redondamente quem pensa o contrário. Poucas coisas existem piores do que o engano de alguém pensar que é o que não é. Para a igreja cristã da Galácia, com pendores para o legalismo, consequentemente intolerância para com quem cometesse erros, o conselho era altamente oportuno.
Mas, estive pensando na palavra "carga". De fato, apesar do uso nesse contexto específico, ela é tradução de um termo grego (bare) que significa uma carga pesada de qualquer tipo. Então, acho que não ferimos o significado original do texto, quando refletimos sobre nosso dever de ajudar nosso irmão a levar outras cargas além de todo o seu sofrimento resultante do fracasso espiritual.
Fardos comuns
O pecado imprimiu marcas profundas na natureza humana. E entre essas marcas está a limitação que geralmente as pessoas têm para lidar sozinhas com os altos e baixos da vida. Algumas reagem razoavelmente bem, outras nem tanto. São pessoas que talvez estejam enfrentando situações difíceis envolvendo família, saúde, relacionamentos, necessidades materiais, algum tipo de perda, sonhos frustrados, planos fracassados, solidão, sentimento de rejeição, discriminação e preconceito, peso das cobranças e exigências do mundo competitivo em que vivemos, insegurança, temor... A lista é longa!
E Deus pode ajudar. Pode e quer. E tem instrumentos para isso. Entre Seus instrumentos estamos nós: você e eu. Ele deseja que cada um de nós ajude o irmão a levar sua carga. Notemos, a ajuda é mútua: "uns dos outros". Olhemos em nosso redor. Prestemos atenção. Ao nosso lado, alguém pode estar esperando uma, apenas uma, palavrinha de afirmação, ânimo, confiança, valorização. Às vezes, pode necessitar de algo mais que palavras. Deus agirá por nosso intermédio.
Certo homem aceitou Cristo e se filiou a uma igreja. Vivenciando novas e positivas experiências, desejou expressar sua alegria aos amigos. A um deles escreveu uma carta. O relato era o mais alvissareiro possível, mas a certa altura, ele escreveu: "A única coisa de que sinto falta é do velho companheirismo com os caras do grupo no barzinho da esquina. A gente ficava lá sentado, ria, contava casos, bebia e relaxava... Era maravilhoso! Mas hoje não tenho ninguém para contar meus problemas, para falar de meus erros. Não encontro ninguém na igreja que queira passar o braço no ombro da gente e dizer que está tudo bem. Cara, a gente se sente muito sozinho ali..."
Talvez questionemos alguns detalhes da queixa, mas a essência é: Alguém pode estar sentindo falta de ajuda para levar suas cargas, justamente onde ela deve estar sobrando, ou seja, na igreja, em todo lugar em que se ache um cristão, em toda comunidade cristã.
Ellen G. White: "O Salvador está ciente do sofrimento mental de Seus filhos. Ele sabe como às vezes o coração deles está ferido e sangrando. Ele gostaria de aliviar e auxiliar os aflitos. Diz-nos Ele: 'Levai as cargas uns dos outros' (Gl 6:2). 'Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos' (Rm 15:1). Devemos nos relacionar corretamente uns com os outros, mesmo que o fazê-lo requeira sacrifício. Cristo realizou um sacrifício infinito por nós, e não deveríamos estar dispostos a nos sacrificar por outros? Devemos guardar-nos cuidadosamente contra ferir ou magoar o coração dos filhos de Deus, pois quando o fazemos, ferimos e magoamos o coração de Cristo."(Olhando Para o Alto [MM 1983], p. 25).
Exemplo de Cristo
Jesus Cristo, nosso exemplo supremo, não acumulou cargas sobre nós. Seu convite é: "Venham a Mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e Eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o Meu jugo e aprendam de Mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso... Pois o Meu jugo é suave e o Meu fardo é leve" (Mt 11:18-30).
"Aprendam de Mim..." Aprender o quê? A levar cargas alheias?... É dEle que devemos aprender essa virtude. É nEle que devemos nos inspirar a fim de praticá-la. Pensemos em como Ele removeu a carga lutuosa da viúva de Naim, de Jairo e das irmãs de Lázaro, a carga incapacitante dos paralíticos, cegos e aleijados, a carga de culpa e vergonha conduzida pela mulher adúltera, Maria Madalena, Pedro, Zaqueu e tantos outros. A carga da preconceituosa rejeição que pesava sobre publicanos e pessoas simples que O aceitaram.
Não há carga que ele não possa remover. E sabia fazer isso até mesmo com quem necessitava de repreensão.
"O Salvador nunca suprimiu a verdade, mas disse-a sempre com amor. Em Suas relações com outros, exercia o máximo tato, e era sempre bondoso e cheio de cuidado. Nunca foi rude, nunca proferiu desnecessariamente uma palavra severa, não ocasionou jamais uma dor desnecessária a uma pessoa sensível. Não censurava a fraqueza humana. Denunciava destemidamente a hipocrisia, a incredulidade, e a iniquidade, mas havia lágrimas em Sua voz ao proferir Suas esmagadoras repreensões. Nunca tornava a verdade cruel, porém manifestava profunda ternura pela humanidade. Toda pessoa era preciosa aos Seus olhos. Conduzia-Se com divina dignidade; inclinava-Se, todavia, com a mais terna compaixão e respeito para todo membro da família de Deus. Via em todos, pessoas a quem tinha a missão de salvar" (Obreiros Evangélicos, p. 117).
"Aprendam de Mim!..."
A lei de Cristo
"Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo." A lei de Cristo não é outra senão a lei do amor. A maior prova de que o amor de Deus flui em nós e através de nós é quando levamos amorosamente as cargas uns dos outros. O fluxo desse amor se dá em via dupla: "uns dos outros".
Em meus tempos de seminarista de Teologia, vendi livros durante as férias a fim de custear os estudos. Numa dessas ocasiões, vi na escrivaninha do comandante de uma unidade do exército, no interior da Bahia, um pensamento que, embora simples, por alguma razão me chamou a atenção. Ei-lo: "No serviço, pensa nos problemas de quem te dirige. No comando, pensa nas lutas de quem te serve."
Esse interesse mútuo é um bom começo em direção à amorosa solidariedade cristã.
Levemos as cargas uns dos outros. É assim que cumpriremos a lei de Cristo. Os benefícios desse gesto na vida dos nossos semelhantes e em nossa vida irão transpor os limites da eternidade.
Autor: Pr. Zinaldo Santos