12/02/2021
Quem lê essas manchetes pode pensar que o piloto espanhol escorregou numa curva e rolou um barranco, bateu num buraco e voou por cima do guidão, ou caiu porque começou a usar sapatilha agora. Essas coisas, sim, seriam um "acidente de bicicleta".
Pelas chamadas, a impressão que f**a é que bicicleta é algo perigoso. A mensagem acaba sendo que "o cara pilota a 350 km/h mas se acidenta de bicicleta, que perigo".
Na verdade, Fernando Alonso FOI ATROPELADO. Essa deveria ser a manchete.
Esse fato aparece sem nenhum destaque nessas matérias. F**a ali no meio do texto, em quatro ou cinco palavras em toda uma página, quase despercebido. Não há informações sobre o atropelamento.
Para jornalistas que cobrem automobilismo ou são apaixonados por carros, o pensamento mais fácil é de que a bicicleta não deveria estar ali, no caminho do automóvel. Talvez sem perceber, propagam a ideia de que Alonso não deveria ter "se arriscado" a usar a bicicleta numa estrada. Que o ciclismo é uma atividade de alto risco. Que a bicicleta é um intruso na ordem natural das ruas.
Não nos deixemos enganar: pedalar, em si, não é perigoso. Quem atropela e mata são os carros.
A nós cabe adotar comportamento de presa, fugindo de predadores irresponsáveis do trânsito, que se nos matarem alegarão que não nos viram. E a matéria na imprensa tradicional ainda trará a manchete: "acidente de bicicleta".