21/03/2014
Pedalar, ocupar, resistir!
Na última quarta-feira, dia 19, mais um edifício público abandonado ao descaso foi demolido. Um prédio onde tentamos desenvolver um projeto comunitário com bicicletas, uma entre as inúmeras iniciativas populares que se proliferam em todo o DF . A Bicicletaria surgiu de demanda comunitária e quis contribuir para uma cidade mais humana, aberta e promotora de outras iniciativas culturais. Nossa iniciativa foi apartada e aniquilada no processo de diálogo com o Governo, justo na época em que o GDF se vangloria dos quilômetros de extensão de ciclovias que tem construído.
Pode até ser que o GDF tenha mais ciclovias que as outras cidades, contudo estas cidades são referência porque investem de verdade na bicicleta, porque têm bicicletários em todos os lugares, porque fomentam o respeito ao ciclista e desestimulam o uso do automóvel por meio de políticas públicas. Em Copenhagen e Amsterdã, por exemplo, as ciclovias estão presentes nas avenidas principais, todas as outras ruas dessas cidades possuem dispositivos de moderação de tráfego que permitem compartilhar com segurança as vias entre carros e bicicletas. Bogotá tem uma rede cicloviária que cobre praticamente a cidade inteira e tem programas que estimulam as pessoas a estarem nas ruas, o que as torna mais seguras para todas/os. Paris compartilha a faixa de ônibus com a bicicleta, fora as ciclofaixas. Enfim, há inúmeros exemplos de políticas para a mobilidade por bicicleta que poderiam ser citados aqui. Vincular maior quilometragem de ciclovia com melhor política de mobilidade por bicicletas é ignorância. As longas ciclovias do GDF foram construídas com material ruim e sofrem de péssimo planejamento de rotas, paradas, cruzamentos, etc. O anti-plano de mobilidade do GDF é um exemplo perfeito de como gerir uma cidade de forma completamente tecnocrática, distanciado-se das pessoas e de suas necessidades, onde os/as usuárias não tem voz.
Não, a nossa proposta não era de fazer somente um bicicletário como a mídia preguiçosa insiste em dizer, também não somos uma ONG como seria mais simples para o governo. Somos uma iniciativa popular que coletivamente escolheu ocupar aquele prédio abandonado e transformá-lo em uma oficina comunitária de bicicletas, enfatizando a autonomia que esse meio de locomoção propõe, onde haveria um espaço de convivência, com biblioteca, sala de reunião, sessões de cinema, debate e tudo mais. Ambicioso demais para que fosse concedida a permissão do governo que não dialoga, apenas indica o que devemos fazer e nos impõe a obediência através da força policial, o exemplo: a desocupação, em que haviam pelo menos 10 PMs para cada integrante do coletivo. Não nos retiramos do prédio em junho de 2013 como dizem as matérias fast food da mídia comercial, fomos retirados de lá no momento em que estávamos organizando uma assembleia com a comunidade para definir os usos do espaço. Na desocupação uma de nossas companheiras foi detida por desacato a autoridade, de maneira arbitrária, porque expressava seu descontentamento pois foram levados para o depósito dezenas de quadros e peças de bicicletas que seriam reformadas para retornarem à comunidade. Esse depósito é inacessível pois o material foi obtido por doações e a burocracia impede que sejam retirados objetos de lá sem nota fiscal.
Atualmente existem diversos prédios públicos abandonados em Brasília, para citar dois, temos o Museu de Arte de Brasília, abandonado pelo GDF desde 2007, era voltado a atividades culturais e foi historicamente subutilizado. O outro é o Centro de Dança do Distrito Federal, abandonado desde 2012, quando parte do forro desabou. Pra mexer com o imaginário de toda uma geração a gente pode citar mais um abandono, esse de 21 anos: a mítica Piscina de Ondas do Parque da Cidade. A resolução pela demolição do antigo prédio da Bicicletaria foi sem dúvida o jeito mais fácil da Administração de Brasília se livrar da dor de cabeça que o imóvel trazia à gestão. No ato da demolição, ao questionarmos os servidores da Administração de Brasília se o prédio seria reconstruído, já que é está incluso no tombamento da cidade, responderam que ali seria construído um Ponto de Encontro Comunitário (PEC), pois não adiantaria ter um novo prédio e não conseguir dar uma destinação a ele. Um PEC não precisaria de tantos cuidados quanto um prédio.
É lamentável que a comunidade perda um prédio desses, com potencial cultural e educativo, um espaço com tantas qualidades por estar fora da lógica comercial que se encontra espalhada pela cidade. Dizer que é uma vitória que o GDF tenha pelo menos destinado aquele prédio aos escombros é esvaziar a problemática política que enfrentamos nesse caso, é nos contentarmos com menos, é ceder ao cansaço que já temos da burocracia e descaso do governo diante de demandas populares. Não temos nada contra esses centros, claro, apenas não entendemos derrubar aquele prédio como um destino satisfatório. Reduzir as pauta propostas como ocupação do espaço público, autogestão, autonomia, a um centro de exercícios (muito parecido com o que acontece quando comparamos a pauta da mobilidade urbana por bicicletas com o que aconteceu com as ciclovias do GDF) é reduzir ao tema da saúde pública, nada ameaçador. Eles disseram que vão construir um ponto de encontro comunitário, mas não nos surpreenderíamos se aquele espaço se tornasse um estacionamento, tendo em vista as políticas públicas de retrocesso que o GDF propõe, quando estimula o uso de carros propondo a construção de gigantesco estacionamento sob a Esplanada ou quando o diretor do DFtras em entrevista ao vivo diz que espera que o ouvinte possa em breve comprar um carro para que não precise mais do transporte público. Sem surpresas, mas a revolta não é menor.
Como dizia um estêncil na fachada da Bicicletaria:
"Ninguém manda no que diz a Rua"
A Cidade é Nossa!!!
Links para conhecer melhor a história da Casa das Bicicletas
GDF Garantindo o Abandono
http://www.youtube.com/watch?v=4oCmp2LYShk
Notificação da Defesa Civil à Adm. de Brasília, abril de 2012
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=178046652357293&set=a.168621899966435.1073741833.163957450432880&type=1&theater
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=178046845690607&set=a.168621899966435.1073741833.163957450432880&type=1&theater
Cinema na Bicicletaria
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.168495406645751.1073741832.163957450432880&type=1
mutirões de reforma:
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.166949240133701.1073741831.163957450432880&type=1
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.169190059909619.1073741834.163957450432880&type=3
Oficinas no Eixão
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.164263153735643.1073741828.163957450432880&type=3
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.164267693735189.1073741829.163957450432880&type=3
Fotos da Demolição:
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.267519786743312.1073741836.163957450432880&type=3