10/09/2013
Levanta-te… e parte!
Hoje é dia da partida. A hora chegou, a ansiedade desapareceu, o momento é único, vai!
Sei bem o que vou fazer? Talvez sim… ou não!
Quero fazê-lo? Mais que nunca.
Liberta-te e disfruta….
Existem momentos na vida em que as nossas respostas dadas a propostas sugeridas por alguém que nos é querido, levam-nos a cometer atos de verdadeira superação. Durante estes últimos três anos senti isso na pele, de forma consciente, mas nem sempre dentro dos padrões de razoabilidade para uma pessoa como todas as outras.
No projecto Corrida Rara a paixão sobrepôs-se à razão e tudo ficou mais fácil.
Ajudar.
Que forma tão louca de o fazer. É a minha forma, o meu desejo é a minha vontade.
Durante 12 dias sei que tudo pode acontecer, para o bem e para o mal, cada km dos 800 a que me proponho fazer inevitavelmente irá deixar marcas no meu corpo e no meu espírito.
Parto confiante!
Não vou sozinho, carrego orgulhosamente comigo a vontade de muitos que aceitaram o desafio de ajudar. Sim, ajudar!
St. Jean Pied de Port, km 0, seis e quinze da manhã, na companhia do pai do Francisco, dou o meu primeiro passo de corrida. À semelhança de uma competição não corro contra ninguém, mas a pressão de querer chegar rápido não está instalada e tranquilamente vou reduzindo os km para o meu destino final. Esta forma de correr permite-me saborear a paisagem de uma forma mais pura e tranquila, interagir com os vários peregrinos que vou passando e sentir mais intensamente toda a mística envolvente, descrita por quem faz os caminhos de Santiago, a pé ou de bicicleta.
À medida que o dia avança, o calor aumenta. Para mim tornou-se a grande dificuldade de toda esta aventura, a par do acumular dos km.
Mesmo no final do primeiro dia senti uma dor anormal no meu joelho esquerdo, dor esta que persistiu durante a noite e que no início do segundo dia não me abandonou. Aí a preocupação instalou-se e logo percebi que seria uma lesão que teria que resolver da melhor forma possível. Recorri a anti-inflamatórios, a sprays analgésicos e fui progredindo mais lentamente no segundo e terceiro dias, até que ao km 50 do terceiro dia, senti dores tão fortes que me deixaram aterrorizado e que me obrigaram a fazer mais 6 km a andar, até decidir que não iria acabar a etapa no local previsto.
Azofra será um local que nunca mais esquecerei! Num ambiente de festa, visto dia 15 de Agosto ser feriado também em Espanha, na companhia do meu novo amigo colombiano, Fernando, e do pai do Francisco, aí permaneci durante uma hora parado com gelo no joelho, a lutar mentalmente por uma solução que me pudesse por de novo a correr ou a andar minimamente. Nunca pensei desistir, mas a frustração causada pela impotência de nem sequer poder andar foi aumentando exponencialmente. Senti que seria uma fraude para todas as pessoas que estavam a apoiar-me, terminar definitivamente ali a corrida. Resolvi tentar andar novamente para terminar o percurso do dia e não consegui. Tive que tomar a decisão de parar e tentar recuperar ao máximo para no dia seguinte reiniciar do mesmo local. Fui recolhido pela minha equipa de apoio e dirigi-me ao albergue previsto para o fim da etapa. Aí falei com um fisioterapeuta que se encontrava a ajudar os peregrinos em dificuldades, que me disse ter contraído uma tendinite no joelho e que deveria parar dois dias para recuperar.
Mas eu não podia parar!
Ao fim de duas ou três vezes a dizer-lhe que tinha que continuar, como se de uma luta de palavras se tratasse, o fisioterapeuta acedeu e aconselhou-me a colocar tapes elásticas por forma a minimizar a dor. E assim aconteceu, colocou-me e ensinou-me a substituir as tapes e tentei descansar ao máximo durante essa noite.
No dia seguinte fui novamente transportado a Azofra e iniciei bem cedo o percurso, receoso a 100% de novamente não conseguir terminar o dia.
Felizmente isso não aconteceu! Terminei o percurso estipulado, fiz um novo amigo, o sueco Anton, que me acompanhou a correr nesse e no dia seguinte e senti-me novamente confiante e motivado. Para além de tudo isto, este dia muito especial para mim foi brindado pela presença dos meus dois filhos, visto que o dia 16 de Agosto é o dia de aniversário do meu filho mais velho. Festejámos o seu aniversário num ambiente improvisado, dediquei-lhe todos os km feitos naquele dia e agradeci-lhe por toda a força que inconscientemente me transmitiu.
É surpreendente como os nossos filhos conseguem ser tão poderosos e motivadores!
Os três dias que se seguiram foram percorridos com as mesmas preocupações já sentidas nos primeiros dias. A lesão no joelho, o calor, o acumular dos km e alguns troços desmotivantes, com paisagens onde o girassol e a palha abundam, levaram-me a delinear objectivos de curta duração. Um dia de cada vez!
Ao oitavo dia, foi com surpresa e agrado que recebi o meu grande amigo Henrique Frazão, do clube “Não fazemos nem mais um km…” e juntos iniciámos o oitavo dia cheios de vontade! O final desse dia foi completamente diferente do seu início. Pela primeira vez senti muita fadiga muscular, anímica e uma necessidade enorme de descansar muito mais horas que as possíveis. Tive muitas dificuldades em alimentar-me e senti o corpo a não recuperar. Durante essa noite, por várias vezes, obriguei-me a ingerir alimentos para tentar recuperar mais um pouco, mesmo sabendo que as horas de descanso seriam reduzidas. À hora de acordar, não senti muitas melhorias, mas tive o discernimento de realizar as minhas tarefas matinais e de partir para a nova etapa. Foi uma etapa muito dura para mim, estava completamente abalado! A subida até à cruz de ferro foi feita de uma forma lenta, um pouco arrastada e num silêncio preocupante. Tiradas as fotos da praxe, iniciámos a descida e nada de novo! A lentidão na progressão era quase a mesma e os níveis de motivação muito baixos.
Chegados a uma pequena aldeia logo após a cruz de ferro, resolvemos parar um pouco para tentar recuperar as forças. Em boa hora o fizemos! Resolvemos tomar um shot de energia, que não é mais do que um pequeno recipiente que contém um líquido energético e que garante cinco horas de energia! Eu e o Henrique dividimos o shot e num espaço muito curto de tempo começámos a sentir mudanças. No meu caso, a sonolência desapareceu e comecei a ter apetite, o que me levou a terminar a etapa com outro espírito e com um pensamento positivo para o dia seguinte.
No décimo dia tudo se tornou um pouco mais animador após a passagem do Cebreiro, a última grande dificuldade em termos de desnível até Santiago de Compostela. O dia estava menos quente e já na companhia de mais um grande amigo, Luís Subtil, do NEL, terminámos a etapa. Cheguei algo cansado, mas cada vez mais confiante em terminar o objectivo a que me propus. No final desse dia fui recebido por uma enorme comitiva vinda de Portugal, constituída por vários amigos que vieram elevar ainda mais o meu estado de espírito e o de toda a equipa.
Passados os km do penúltimo dia, chegámos à última etapa, rumo a Santiago de Compostela. Para mim este dia foi passado e sentido de forma diferente. Tinha deixado para trás todas as dificuldades do percurso, todos os momentos de dor, de ansiedade e incerteza. Todas as dúvidas tinham desaparecido! A companhia de muitas pessoas, vindas de vários sítios do País absorviam os pensamentos de precaução que ainda me assolaram nos últimos km.
Ia terminar!
Era uma pessoa feliz!
Feliz, por estar a correr ao lado de tantos amigos que partilharam o mesmo objetivo. Ajudar!
Feliz por ter naquele momento a minha família presente.
Feliz por ter carregado orgulhosamente na minha mochila, todas aquelas pessoas, registadas nas 217 fitas.
Feliz por saber que a sala de snoezelen no centro da Raríssimas na Maia seria uma realidade!
Feliz por ter realizado um sonho.
Feliz por ver os outros felizes!
A chegada a Santiago foi difícil de digerir… Não sou uma pessoa que demonstra facilmente as emoções! Quando vi a catedral pela primeira vez, ao som de uma gaita-de-foles estrategicamente posicionada, não consegui mais……
Chorei!
Abracei toda a gente e fui abraçado por todos!
De todos, senti o carinho e o agradecimento na minha pele, no meu suor!
Senti-me realizado!
Agradeço a TODOS os que estiveram comigo e que acreditaram nesta minha ousadia.
Estou especialmente grato ao pai do Francisco por todo o apoio que me deu durante os 12 dias sem querer receber nada em troca. Nada disto teria sido possível sem a tua ajuda.
Agradeço do fundo do meu ser à Catarina Neves, a minha princesa, à Maria João Santos e Eunice Santos, a minha família. Agradeço-vos por tudo o que passaram, pelo apoio dado 24 horas e pela mestria demonstrada em saber lidar com todas as contrariedades que surgiram.
Ao Henrique Frazão pela sua amizade e coragem em acompanhar-me durante os últimos 5 dias. Meu irmão, para quem nunca tinha corrido mais de 30 km, ter feito 5 ultra maratonas seguidas é de um verdadeiro guerreiro. Registo aqui o meu respeito para contigo!
A todos os meus amigos que estiveram presentes nos últimos 2 dias, em especial ao Luís Subtil e às lindas meninas Dora Sousa e Teresa Conceição, aqui f**a o meu agradecimento.
Agradeço à SONAE pela confiança e apoio demonstrados.
Finalmente o meu enorme agradecimento à RaríSSIMAS, por existir e dar tudo o que tem e pode em prol das doenças raras.
Uma imagem vale mais que mil palavras!
Saboreiem… Levantem-se e partam!
António Silva
TUDO em: http://nel.pt/corrida-rara-2013/
António Silva correu o Caminho Francês para ajudar uma instituição, RARÍSSIMAS - Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras. TUDO em: http://nel.pt/...