Isabel Fontes

Isabel Fontes Críticas que eu escrevo sobre livros que leio em diferentes línguas — português, inglês, espanhol ( por vezes francês!). Partilho aqui & Goodreads. Leia/Comente!

Entre clássicos e novidades, leio com prazer e curiosidade. Entre outras coisas que rabisco. Isabel Fontes está sempre envolvida em projectos culturais, quer como autora, quer como organizadora. Considerada uma Mulher dinâmica, pela forma como se entrega a todos os projectos, tomando a seu cargo toda a organização, coordenação e dinamização dos mesmos. Detesta a monotonia e está sempre a pensar em

novos Projectos e novas Ideias para Dinamizar a Cultura Portuguesa. Tem por hábito dizer "quem corre por gosto, não cansa", adora tudo o que faz e tem pena de o dia ter só 24 horas! O seu mote na vida é “Mudar a mentalidades!”.

Li Eros após o livro me ter chegado numa escala de avião, sobrevivido a caixas de mudanças e esperado, pacientemente, po...
13/12/2025

Li Eros após o livro me ter chegado numa escala de avião, sobrevivido a caixas de mudanças e esperado, pacientemente, por uma casa nova. Essa viagem não o transformou; apenas o colocou em suspensão. A leitura começou quando o espaço ficou em silêncio.

Eros não se lê como um livro de poemas convencional. Lê-se como um campo. Um terreno onde palavra, página e corpo se testam mutuamente. Filipe Chinita escreve com uma consciência aguda de que o erotismo não reside no que é dito, mas na forma como o dizer se aproxima, recua, falha ou insiste. Aqui, o desejo não é tema: é método.

O poema cresce verticalmente, escavando. As palavras isolam-se, quebram-se, abrem parênteses, recusam a fluidez fácil. Há uma recusa deliberada da frase confortável. Cada verso parece perguntar-se se tem o direito de existir — e é precisamente essa dúvida que o legitima. O erotismo em Eros é um exercício de atenção extrema: ao corpo, à memória, à linguagem, à história.

O livro constrói-se em camadas. Corpo íntimo e corpo político não se separam. A sexualidade é atravessada pela herança, pela violência histórica, pela educação sentimental de um país e de uma língua. Há aqui um entendimento claro de que não existe desejo inocente — e, ainda assim, o texto insiste numa possibilidade de beleza. Uma beleza tensa, nunca decorativa.

A disposição gráf**a não é um adorno: é semântica. O espaço em branco não ilustra o silêncio; é o silêncio. As imagens contaminam o poema, não como ilustração, mas como matéria orgânica. O livro exige tempo e exige o corpo do leitor — os olhos, a respiração, a paciência.
Não há concessões.

O que mais me interessa em Eros é a sua ética. Este é um livro que não seduz para agradar, mas para deslocar. Não procura cumplicidade fácil, nem reconhecimento imediato. Há risco na forma, risco no tom, risco na exposição. O erotismo aqui não é consumo: é fricção.

Quando fechei o livro, não senti que tivesse terminado uma leitura, mas que havia percorrido um caminho. Eros não deixa uma conclusão — deixa um estado. Um lugar onde a linguagem ainda treme, onde o corpo ainda pensa, onde o desejo continua indomável, incómodo e necessário.

É um livro que não pede amor. Pede atenção. E isso, hoje, é raro.

@seguidoresáFábrica de Textos - Grupo Escrita CriativapApaixonados por Livros e DivulgaçãoiDicas de leituramAmantes da Leitura

Ler A Desobediente foi como abrir uma janela antiga: daquelas que rangem, que deixam entrar vento e memória ao mesmo tem...
24/11/2025

Ler A Desobediente foi como abrir uma janela antiga: daquelas que rangem, que deixam entrar vento e memória ao mesmo tempo.

Eu já conhecia Maria Teresa Horta — ou melhor, conhecia-a na forma luminosa e afiada dos seus poemas, das suas cartas incendiárias, daquela coragem de quem escreve com o corpo inteiro. Mas Patrícia Reis ofereceu-me outra Teresa: a menina ferida, vigilante, insubmissa desde o berço, aquela que aprendeu demasiado cedo que o mundo não tem almofadas para suavizar quedas femininas.

A biografia avança com um lirismo contido, quase cinematográfico. Há páginas que parecem planos de luz rasgada: a mãe afundada numa depressão invisível; a avó que salva, ampara, acende; a Teresinha que observa tudo com a inquietação própria de quem já nasceu a conspirar liberdade. Confesso que, em certos momentos, me apanhei a sorrir daquele seu temperamento de faísca — uma desobediente por vocação, com uma lucidez precoce que faria tremer muito adulto.

E depois, claro, o país. Portugal surge no livro como um cenário rígido, quase claustrofóbico, onde Teresa tenta alargar as paredes a golpes de palavra. A ditadura, a censura, a vigilância — tudo isso atravessa a narrativa como uma respiração áspera. Mas a cada golpe, Teresa responde com poesia. Parece uma excentricidade heroica, mas é simplesmente o modo como ela existe: a língua é o seu refúgio e a sua arma.

Patrícia Reis consegue algo raro: ilumina sem domesticar. Não tenta suavizar as ambiguidades, o temperamento vulcânico, as zonas de sombra. Mostra a Teresa inteira — a poeta, a militante, a amante, a filha ferida — com uma escrita elegante, sensorial, que por vezes parece caminhar na fronteira difusa entre romance e testemunho.

As partes sobre Novas Cartas Portuguesas são particularmente arrepiantes. A perseguição, a vigilância, as fronteiras fechadas e as portas a bater — e, ao mesmo tempo, as vozes femininas que ecoam para lá das fronteiras, num coro clandestino. É o momento em que percebemos que a literatura não salva apenas quem a escreve; salva também quem a lê, quem a transporta, quem a sussurra.

Fechei o livro com uma espécie de silêncio atento — aquele silêncio que só sentimos quando uma vida nos atravessa. E fiquei a pensar que Maria Teresa Horta nunca “pertenceu” à literatura portuguesa: ela antes a reinventou, com a mesma ousadia com que se recusa a caber num molde.

Recomendo esta biografia a quem gosta de livros que fervilham, que perturbam, que iluminam. E também a quem precisa, de quando em quando, de recordar que a liberdade não nasce pronta — constrói-se, verso a verso, desobediência a desobediência.

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A ternura como forma de resistência — leitura pessoal de “do tamanho das nossas vidas” de Filipe ChinitaHá livros que nã...
10/11/2025

A ternura como forma de resistência — leitura pessoal de “do tamanho das nossas vidas” de Filipe Chinita

Há livros que não se limitam a contar uma história: reconstroem o fôlego de uma época e o tremor de uma emoção. Do Tamanho das Nossas Vidas, de Filipe Chinita, é um desses livros. Lê-se como um testemunho íntimo e, simultaneamente, como a crónica poética de uma geração que acreditava que o amor e a revolução eram duas formas da mesma coragem.

O livro nasce da memória de 1976, em Moscovo, quando a juventude portuguesa, recém-saída do 25 de Abril, ainda se iluminava pela promessa de um mundo novo. Mas a sua força ultrapassa a circunstância histórica: é um longo poema sobre a aprendizagem do desejo, da entrega e da consciência — e sobre a fidelidade à esperança, mesmo quando ela dói.

A escrita de Filipe Chinita é uma escrita a duas vozes. O livro alterna entre o registo dele e o dela — o redondo e o itálico, o olhar político e o olhar do corpo. A estrutura não é apenas formal: é uma forma de dizer que o amor, para ser pleno, precisa de ser dialógico, que nenhuma revolução se cumpre sem escuta.

Cada poema é um fragmento datado, um diário de Moscovo, mas também um exercício de fusão — de dois corpos, de dois pensamentos, de duas formas de ser no mundo. O tempo do livro é o de uma convivência intensa e breve, em que a palavra tenta reter o instante antes que a distância o consuma.

No fundo, Do Tamanho das Nossas Vidas é um tratado poético sobre a simultaneidade entre o íntimo e o histórico. Chinita escreve o desejo como quem escreve a utopia: o toque, o encontro, a partilha, tudo se inscreve num espaço que é também político. O erotismo não se opõe à militância; é a sua extensão mais sensível. Há poemas que parecem cartas de amor, outros que soam a reflexões sobre a dialética e a matéria, mas, em todos, há a mesma tensão vital — o esforço de unir o que o tempo tende a separar: corpo e ideia, amor e luta, paixão e justiça. Essa fusão é o gesto central do livro e também a sua beleza.

A linguagem, fragmentada e livre, faz eco da urgência dos dias. As palavras são curtas, verticais, respiram como passos. A disposição gráf**a — versos que se estendem, isolam ou suspendem — cria o ritmo de uma conversa interrompida pela vida. É uma escrita que se move entre o manifesto e o murmúrio. Em certos momentos, lembra-nos que a poesia pode ser uma forma de pensar sem deixar de sentir; noutros, faz-nos perceber que a ternura, quando verdadeira, tem uma dimensão política.

O que mais impressiona em Filipe Chinita é a serenidade com que o poema acolhe o conflito. O livro não procura o heroísmo fácil nem o sentimentalismo: fala do medo, da perda, da solidão, da contradição inevitável entre o sonho e o real. Mas há sempre uma luz, mesmo que ténue, a atravessar o texto. É a luz de quem acredita que o gesto de escrever — e de amar — pode ser ainda uma forma de resistência. Moscovo torna-se, assim, menos um lugar geográfico e mais um território simbólico: o espaço onde a revolução se encontra com o coração humano.

A última parte do livro, mais reflexiva, devolve ao leitor o sentido do percurso: o amor e a militância confundem-se, e a aprendizagem do outro é também a aprendizagem da entrega. A consciência política amadurece lado a lado com a consciência do desejo. O erotismo surge como uma força vital, não como fuga, mas como energia transformadora. Há ecos de Marx e de Maiakovski, mas também de uma tradição portuguesa da poesia ética — aquela que procura unir a palavra e o mundo, a ternura e a justiça.

Ler Do Tamanho das Nossas Vidas hoje é revisitar um tempo em que se acreditava que as palavras podiam mudar o destino. Mas é também reconhecer que essa crença não se perdeu: apenas se fez mais íntima, mais silenciosa, mais necessária. Filipe Chinita escreve como quem constrói uma ponte entre o passado e o que ainda pode ser salvo. A sua poesia, rigorosa e sensível, é o testemunho de alguém que nunca desistiu da delicadeza, mesmo no meio da luta.

Há livros que envelhecem; outros que amadurecem. Este amadureceu. E ao fazê-lo, lembra-nos que o amor e a revolução — quando verdadeiros — têm ambos o tamanho das nossas vidas.

E há livros que viajam, atravessam o tempo e o espaço, como se procurassem o leitor certo. Este chegou a Londres — inteiro, luminoso — para que eu o lesse. E nessa travessia, confirmou que a poesia também sabe regressar a casa.

O Meu Pai Voava, de Tânia Ganho, é um livro sobre o amor em queda e o voo interior que se segue à perda. É também um tes...
09/11/2025

O Meu Pai Voava, de Tânia Ganho, é um livro sobre o amor em queda e o voo interior que se segue à perda. É também um testemunho raro da fragilidade humana diante do esquecimento e da força silenciosa que nasce de continuar a amar alguém que já não nos reconhece.

A autora escreve sobre o pai — um homem brilhante, curioso, cheio de vida — e sobre o modo como o Alzheimer o foi levando, pouco a pouco, até ao ponto de o corpo permanecer e a memória desaparecer. Mas Tânia Ganho não se limita a descrever o processo: transforma-o num exercício de ternura e lucidez, em que cada gesto quotidiano se torna uma prova de amor e resistência.

A escrita é depurada, elegante, sem dramatismo e, por isso, profundamente tocante. Entre recordações e reflexões, a autora vai desfiando o que resta quando a presença física já não basta — a culpa, o alívio, a saudade, o silêncio.

Em cada página, a dor é atravessada pela gratidão, e o luto surge como um espaço de reconciliação.

Há passagens de uma verdade quase insuportável — como quando Tânia admite o alívio que acompanha o fim de uma morte lenta — e é precisamente nessa honestidade que reside a grandeza do livro.

O Meu Pai Voava é uma celebração serena da vida, mesmo quando ela se apaga. Um livro sobre a despedida que nunca se conclui, sobre o amor que persiste e, sobretudo, sobre a delicadeza de continuar a escrever quando já não há voz para responder.

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Os Passos em Volta, de Herberto HelderLer Os Passos em Volta é entrar num território onde a linguagem se faz carne e fer...
27/10/2025

Os Passos em Volta, de Herberto Helder

Ler Os Passos em Volta é entrar num território onde a linguagem se faz carne e ferida. Herberto Helder não escreve para entreter — escreve para incendiar. Cada frase parece saída de um lugar onde o humano e o divino se confundem, onde a memória, a infância e a morte se cruzam num mesmo sopro.

Não é um livro que se leia, é um livro que se atravessa — com cautela, assombro e, por vezes, exaustão. Há contos que são quase poemas em estado bruto, linhas que parecem querer romper o papel de dentro para fora.
A sua prosa tem algo de magnético, de orgânico, de inevitável: como se a própria língua portuguesa, cansada de ser doméstica, encontrasse aqui o seu grito mais puro.

Nem todos os leitores entrarão neste mundo. É preciso maturidade, ou talvez uma certa predisposição para o desconforto. Herberto não procura agradar — desafia. Há nele uma violência delicada, uma beleza que fere e uma lucidez que não pede desculpa.

O narrador, entre a solidão e a errância, percorre paisagens interiores e exteriores onde a dor se confunde com a revelação. É o retrato de quem vive “afogado nas histórias dos outros homens” e, ainda assim, continua a procurar sentido — mesmo quando o sentido se desfaz.

Helder é o poeta que se atreve a perguntar o que os outros calam, o que desafia Deus e o acaso com a mesma reverência febril.
Na morte, na infância e no sonho, encontra a sua matéria sagrada — e nela constrói uma obra onde o mistério não se resolve, apenas se aprofunda.

Os Passos em Volta é um livro raro, desses que não envelhecem porque nunca pertencem inteiramente ao seu tempo.
E talvez seja isso o que o torna tão necessário: lembrar-nos de que a literatura, quando é verdadeira, não serve para explicar o mundo — serve para o incendiar.

Almoço de Domingo, de Jose Luis PeixotoHá algo de profundamente íntimo em Almoço de Domingo, de José Luís Peixoto.Sob a ...
22/10/2025

Almoço de Domingo, de Jose Luis Peixoto

Há algo de profundamente íntimo em Almoço de Domingo, de José Luís Peixoto.
Sob a sua superfície tranquila — a biografia de um homem, Rui Nabeiro, cuja vida espelha o Portugal do último século — esconde-se uma meditação silenciosa sobre o tempo, a herança e a delicada persistência do propósito humano.

Peixoto aborda o seu protagonista não como jornalista nem como historiador, mas como poeta disfarçado em prosa.
A sua escrita respira — é lenta, contida, e profundamente respeitosa perante o que resiste à narração simples.
Através da história de Nabeiro, o empresário nascido no Alentejo, constrói um espelho onde o país se reconhece: na pobreza e na perseverança, na ternura e na dignidade teimosa.

O ritmo do livro é o de um relógio antigo — constante, mas vivo de memória.
Cada capítulo é como uma fotografia segurada demasiado tempo — com as margens gastas, as cores a desvanecer, mas o calor intacto.
Peixoto não mitif**a Nabeiro; observa-o com um olhar simultaneamente terno e rigoroso, atento aos pequenos gestos que definem uma vida mais do que qualquer feito grandioso.

Esta não é uma biografia convencional.
É, antes, uma exploração da ficção dentro da verdade — de como a memória se dobra à emoção, de como o facto se transforma em símbolo.
A linha entre o homem e o mito esbate-se, e nesse espaço de sombra emerge o maior talento de Peixoto: a capacidade de escrever a alma de um lugar através da vida dos seus habitantes.

Há ecos da ternura moral de Saramago e da densidade de Lobo Antunes, mas Peixoto é inconfundivelmente ele próprio — lírico sem ser indulgente, enraizado sem ser nostálgico.
O Alentejo é mais do que cenário: é metáfora — vasto, ofuscado de sol, resistente.

Almoço de Domingo não procura deslumbrar; alcança algo mais raro — emociona com autoridade silenciosa.
Recorda-nos que a biografia, quando escrita com empatia, nunca é apenas sobre a vida que retrata, mas também sobre a continuidade frágil do leitor: essa sensação de que as nossas histórias, também elas, poderiam ser contadas — se alguém as escutasse com atenção suficiente.

Apesar do Sangue, de Rita da NovaRita da Nova escreve com a ferocidade silenciosa de quem já viu o amor falhar — e, aind...
22/10/2025

Apesar do Sangue, de Rita da Nova

Rita da Nova escreve com a ferocidade silenciosa de quem já viu o amor falhar — e, ainda assim, acredita na sua possibilidade.
Apesar do Sangue é um romance sobre a herança — não, a que se escreve em testamentos, mas a que se grava nos gestos, nos silêncios, nas feridas que teimam em não sarar.

No centro está Glória, uma avó que mede os limites do corpo e o peso do legado que deixará. À sua volta gravitam aqueles que já desistiram: Helena, a mãe que partiu; Eduardo, o quase-pai que nunca deixou de o ser; e Pedro, a criança que o mundo decidiu ser difícil de amar.
Eles não vivem — assombram-se reciprocamente. Cada capítulo soa a confissão murmurada através de paredes, num entrelaçar de vozes frágeis e ternas.

A prosa de Rita da Nova respira — é poética sem ser melosa, carregada de dor e contenção.
As suas metáforas desdobram-se com a precisão de quem passou a vida a escutar o que não é dito. Constrói a história como se a fizesse de vidro partido: fragmentos que refletem a mesma ferida sob ângulos diferentes — sempre a cortar, sempre a brilhar.

Este é um romance sobre como o amor sobrevive às suas próprias falhas.
A autora não moraliza; observa. Permite que as personagens sejam frágeis, contraditórias, quase redimidas — e é aí que reside a beleza.
O ritmo não linear da narrativa imita a memória — circular, imperfeita, profundamente humana.

Ler Apesar do Sangue é, por vezes, como suster a respiração debaixo de água.
Reconhecemos ali a nossa própria família — não nas ações, mas nas pequenas ruínas: na incapacidade de dizer a palavra certa, no gesto que falha, no silêncio que se prolonga.
Rita da Nova compreende que cada família é uma pequena civilização em ruínas, onde a ternura e a crueldade falam a mesma língua.

Há uma graça subtil na forma como deixa a história respirar — sem grandes revelações, apenas a lenta consciência de que o amor, também ele, tem um corpo e que se magoa com facilidade.
Quando a última página se fecha, o que f**a não é tristeza, mas reconhecimento: a certeza de que amar é sempre arriscar desaparecer dentro da dor do outro — e chamar a esse risco, simplesmente, família.

Paris: Quando nada é o que parece ser, Gleidston CésarHá livros que nos tocam pela história e há outros que nos tocam pe...
17/10/2025

Paris: Quando nada é o que parece ser, Gleidston César

Há livros que nos tocam pela história e há outros que nos tocam pela voz. Paris: Quando nada é o que parece ser ,é um desses raros livros em que o autor escreve não apenas com as palavras, mas com as feridas. Gleidston César oferece-nos um romance que começa como memória e se transforma em revelação — uma viagem interior pela infância, pelo abandono e pelo espanto de existir num mundo que tantas vezes nos esquece.

Falo não apenas como leitora, mas como amiga e admiradora do trabalho de Gleidston desde o início do seu percurso literário. Tenho acompanhado a sua escrita crescer com uma coerência rara — sempre fiel à verdade das emoções, sempre atento à fragilidade humana. Em cada novo livro, reconheço essa mesma assinatura: a de quem escreve para tocar, e não apenas para impressionar.

A passagem em que o narrador é deixado na rodoviária — sozinho, com duas bandas desenhadas e uma dor demasiado grande para a sua idade — é uma das mais comoventes que li nos últimos tempos. A escrita de César tem a delicadeza do que é vivido e a força do que nunca se apaga. Há um silêncio a atravessar estas páginas, o mesmo silêncio que separa o amor da perda, a inocência da sobrevivência.

Não é um livro sobre tragédia — é um livro sobre resiliência. Sobre o modo como a ternura, mesmo quando ferida, continua a procurar forma. A personagem de Matilde, essa mulher que surge da noite com mãos de luz, é uma metáfora perfeita para o gesto de salvação que o autor repete ao escrever: resgatar da escuridão o que poderia ter sido esquecido.

A linguagem é limpa, envolta numa melancolia que nunca se torna pesada. Há nela um ritmo quase cinematográfico, mas ao mesmo tempo íntimo — como quem se senta ao nosso lado e nos conta a vida aos sussurros. Cada frase parece ter sido escrita com um cuidado que só quem passou pela dor consegue ter: o cuidado de não ferir o leitor, mesmo quando o que se conta é duro.

Paris: Quando nada é o que parece ser, é, no fundo, uma carta aberta ao passado — e a todos os lugares onde fomos deixados à espera de alguém que talvez nunca voltasse. É um livro sobre o medo e a esperança, sobre o que se perde e o que se encontra, e sobre essa estranha forma de beleza que é continuar a acreditar nas pessoas, mesmo depois do abandono.

Fechei-o com a sensação de ter ouvido uma confissão que não pedia perdão, apenas escuta. E percebi que há histórias que não se esquecem — apenas mudam de corpo e voltam em forma de livro.


Gleidston César

A Noite em que o Verão Acabou – João TordoHá livros que não se limitam a ser lidos — atravessam-nos. Entram devagar, com...
17/10/2025

A Noite em que o Verão Acabou – João Tordo

Há livros que não se limitam a ser lidos — atravessam-nos. Entram devagar, como o fim de uma tarde quente, e f**am ali, a murmurar nas sombras do pensamento. A Noite em que o Verão Acabou é um desses livros: um romance que se disfarça de thriller para poder falar de tudo o que realmente importa — o amor, a perda, o tempo e a culpa.

Não é um livro sobre o crime, mas sobre o que o silêncio faz às pessoas. João Tordo escreve como quem observa a vida através de uma janela embaciada: tudo o que vemos é real e, ainda assim, parece um sonho prestes a desvanecer. As personagens movem-se entre a luz e a sombra, presas ao passado, àquilo que não conseguiram esquecer — ou perdoar.

Pedro Taborda, o narrador, é um desses prisioneiros da memória. No verão de 1987, apaixona-se por Laura Walsh, a filha de um magnata americano em férias no sul de Portugal — uma paixão que o marcará muito depois do calor se dissipar e o mar f**ar frio. Anos mais tarde, já em Nova Iorque, reencontra Laura num contexto muito diferente: um homicídio, uma filha acusada, uma família dilacerada por segredos antigos. Mas o crime é apenas a superfície do abismo — o que Tordo escreve, na verdade, é sobre as feridas invisíveis que o tempo não cura.

Há em Tordo uma elegância quase cruel. Ele não grita, sussurra. Não mostra, insinua. E é precisamente nesse gesto contido que nasce a força da sua escrita — uma força que vem da pausa, do intervalo entre o que é dito e o que f**a por dizer.

Enquanto lia, senti-me dentro de uma casa fechada há muitos anos, onde cada divisão cheira a recordações. O livro é assim: cheio de ecos, de portas entreabertas, de vozes que continuam a falar mesmo quando a página vira. Há uma tristeza bela a atravessar tudo — a melancolia de quem sabe que nenhum verão volta a ser o mesmo, mesmo quando regressa o calor.

No fim, não é o mistério que nos prende, mas a ferida. A ferida de quem ama e erra, de quem guarda demasiado tempo o que devia ter deixado partir. A Noite em que o Verão Acabou é isso — o retrato de um amor que se dissolve na memória, mas nunca desaparece por completo.

Lê-se com a sensação de estar a caminhar à beira do mar ao entardecer: o vento levanta o passado, o céu fecha-se devagar e percebemos que o verão — aquele, o verdadeiro — acabou.

Ratos e Gatos, de Gleidston CesarRatos e Gatos, do poeta Gleidston Cesar, é uma obra que habita o território da emoção, ...
15/10/2025

Ratos e Gatos, de Gleidston Cesar

Ratos e Gatos, do poeta Gleidston Cesar, é uma obra que habita o território da emoção, da reflexão e da delicada arte de perceber o mundo através da intimidade do próprio universo interior. Cada poema surge como uma revelação silenciosa, um convite a deter-nos e a escutar o murmúrio subtil do pensamento e do sentimento entrelaçados.

Este cativante conjunto de poemas entrelaça versos graciosos e palavras encantatórias, criando uma atmosfera que nos envolve suavemente. É uma experiência imersiva — um apelo à contemplação, à entrega à linguagem, ao fluir das marés cambiantes da emoção humana.

O que torna Ratos e Gatos tão fascinante é a forma como cada poema, embora completo em si mesmo, parece estender-se aos outros, formando fios invisíveis de signif**ado e de emoção. A unidade que os une é quase musical — cada texto ressoa com ecos do anterior e prepara o terreno para o que virá. Juntos, compõem um todo harmonioso, ao mesmo tempo delicado e profundo.

Nos versos de Cesar, as estrofes elevam-se e esbatem-se como suspiros, e as metáforas abrem portas para um universo interior — um espaço onde a ausência adquire luz própria. Nas páginas deste livro, encontro frequentemente a palavra, a imagem, o instante fugaz que reacende a sensualidade da distância — a beleza terna de algo, ou de alguém, que permanece por um momento fora do alcance.

Ratos e Gatos é um livro a que se regressa sempre, não para ser lido apressadamente, mas saboreado devagar, como a última luz do entardecer. Recomendo-o de coração aberto — esta notável colectânea do meu querido amigo, o poeta Gleidston Cesar, cuja voz continua a ecoar muito depois de lida a última linha.


Gleidston César

Estranhas Notícias de Outro Planeta – Hermann HessePoucos escritores se aventuraram tão profundamente na cartografia sec...
08/10/2025

Estranhas Notícias de Outro Planeta – Hermann Hesse

Poucos escritores se aventuraram tão profundamente na cartografia secreta do espírito humano como Hermann Hesse. Estranhas Notícias de Outro Planeta convida o leitor a atravessar o limiar que separa o mundo visível da paisagem interior onde o mito e a contemplação se entrelaçam.
Poucos viajantes, sugere Hesse, abandonam o brilho hipnótico das aparências para seguir a intuição do que se esconde dentro de si — e, no entanto, quem ousa fazê-lo encontrará nestes contos uma forma rara de revelação.

As histórias começam com o ritmo familiar dos contos de fadas europeus: animais que falam, metamorfoses, viagens encantadas. Mas Hesse depressa desvia o curso, transformando o maravilhoso em instrumento de reflexão.
O homem que se torna pedra, o rapaz guiado por uma ave para outro mundo, o visitante que compreende a linguagem dos animais cativos — todos são figuras de transcendência e solidão, símbolos da tensão entre o efémero e o eterno.

Escritos ao longo de décadas marcadas pela guerra e pela inquietação pessoal, estes contos espelham o diálogo interior de Hesse com o Oriente e com as fracturas morais da modernidade. A presença do misticismo oriental percorre as narrativas como um perfume discreto — não como ornamento, mas como meio de compreensão.
Mesmo nos seus alegóricos protestos pacifistas, persiste uma claridade serena: a convicção de que a consciência, por si só, contém uma possibilidade de redenção.

A tradução de Jack Zipes preserva a gravidade lírica do alemão de Hesse, convertendo as suas cadências num inglês de rara limpidez e ressonância. O resultado é uma obra simultaneamente intemporal e profundamente moderna, um conjunto de parábolas para quem se sente afastado do espanto primordial.

Ler Estranhas Notícias de Outro Planeta é recordar que os verdadeiros territórios de Hesse nunca foram geográficos, mas espirituais. São contos de fadas para aqueles que começaram a despertar — e perfeitos para quem deseja ler e, ao fazê-lo, atravessar o limiar entre o sonho e o real, entre o mundo e o acto de acordar.

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