Isabel Fontes

Isabel Fontes Críticas que eu escrevo sobre livros que leio em diferentes línguas — português, inglês, espanhol ( por vezes francês!). Partilho aqui & Goodreads. Leia/Comente!

Entre clássicos e novidades, leio com prazer e curiosidade. Entre outras coisas que rabisco. Isabel Fontes está sempre envolvida em projectos culturais, quer como autora, quer como organizadora. Considerada uma Mulher dinâmica, pela forma como se entrega a todos os projectos, tomando a seu cargo toda a organização, coordenação e dinamização dos mesmos. Detesta a monotonia e está sempre a pensar em

novos Projectos e novas Ideias para Dinamizar a Cultura Portuguesa. Tem por hábito dizer "quem corre por gosto, não cansa", adora tudo o que faz e tem pena de o dia ter só 24 horas! O seu mote na vida é “Mudar a mentalidades!”.

Li Eros após o livro me ter chegado numa escala de avião, sobrevivido a caixas de mudanças e esperado, pacientemente, po...
13/12/2025

Li Eros após o livro me ter chegado numa escala de avião, sobrevivido a caixas de mudanças e esperado, pacientemente, por uma casa nova. Essa viagem não o transformou; apenas o colocou em suspensão. A leitura começou quando o espaço ficou em silêncio.

Eros não se lê como um livro de poemas convencional. Lê-se como um campo. Um terreno onde palavra, página e corpo se testam mutuamente. Filipe Chinita escreve com uma consciência aguda de que o erotismo não reside no que é dito, mas na forma como o dizer se aproxima, recua, falha ou insiste. Aqui, o desejo não é tema: é método.

O poema cresce verticalmente, escavando. As palavras isolam-se, quebram-se, abrem parênteses, recusam a fluidez fácil. Há uma recusa deliberada da frase confortável. Cada verso parece perguntar-se se tem o direito de existir — e é precisamente essa dúvida que o legitima. O erotismo em Eros é um exercício de atenção extrema: ao corpo, à memória, à linguagem, à história.

O livro constrói-se em camadas. Corpo íntimo e corpo político não se separam. A sexualidade é atravessada pela herança, pela violência histórica, pela educação sentimental de um país e de uma língua. Há aqui um entendimento claro de que não existe desejo inocente — e, ainda assim, o texto insiste numa possibilidade de beleza. Uma beleza tensa, nunca decorativa.

A disposição gráfica não é um adorno: é semântica. O espaço em branco não ilustra o silêncio; é o silêncio. As imagens contaminam o poema, não como ilustração, mas como matéria orgânica. O livro exige tempo e exige o corpo do leitor — os olhos, a respiração, a paciência.
Não há concessões.

O que mais me interessa em Eros é a sua ética. Este é um livro que não seduz para agradar, mas para deslocar. Não procura cumplicidade fácil, nem reconhecimento imediato. Há risco na forma, risco no tom, risco na exposição. O erotismo aqui não é consumo: é fricção.

Quando fechei o livro, não senti que tivesse terminado uma leitura, mas que havia percorrido um caminho. Eros não deixa uma conclusão — deixa um estado. Um lugar onde a linguagem ainda treme, onde o corpo ainda pensa, onde o desejo continua indomável, incómodo e necessário.

É um livro que não pede amor. Pede atenção. E isso, hoje, é raro.

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